sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Viagem a Paris

Volta e meia vejo fotos e posts de “amigos” no facebook, gente com quem não converso mais mas também com quem nunca conversei muito, e fico feliz de ver que aquela atração que a Europa exerce, pelo menos em mim, ela parece exercer também em outros.
Junho passado a mãe veio visitar e tínhamos alguns lugares no nosso itinerário. A primeira parada foi Paris.
Um dos lugares que parecem mais marcantes e que os “amigos” mais parecem gostar é Paris. A cidade da luz e da sofisticação. Por onde você anda absorvendo a riqueza histórica e tudo ao seu redor soa como música, tão linda é a língua francesa. E os parisienses, intelectuais absortos em seus livros e jornais, sentados no parque, tomando um bom vinho tinto ou um bom café num restaurante à sombra da torre Eiffel. Ah, Paris! Um museu e um jardim diferente para cada temperamento e estação, um monumento histórico para cada época e obra literária. Só de dizer seu nome Paris me faz suspirar.
Antes de viajar, a expectativa com Paris era tanta que resolvi escutar minha intuição e ler um pouquinho sobre as experiências de outros viajantes. Não sei se foi azar, mas a maioria tinha uma imagem tão positiva, ou talvez eu quisesse tanto que essa imagem fosse positiva que deixei muito detalhe passar batido. Enfim, lá fomos nós para Paris, pedindo informação só para o google, porque eu sou desconfiada e não gosto de perguntar na rua, até chegar no hostel.
Chuveiro do quarto estava quebrado, o beliche foi provavelmente a coisa mais barulhenta que eu deitei na minha vida, isso contando meus dois gatos, e a lâmpada lateral não tinha, é, lâmpada. Mas era hostel e a gente estava, pelo menos, num quarto só para nós duas, com banheiro privativo, toalhas e lençóis limpos e ainda estava incluso o café da manhã. Yes!
Quem me conhece e consegue imaginar meu tom de voz e sabe onde eu geralmente ponho notas de sarcasmo – nossa, meu português tá muito sendo traduzido do inglês, que merda – já deve ter ficado claro que a viagem foi uma droga.
Reclamar de Paris é taboo. É tenso né, dizer que você foi até a porra do topo da torre Eiffel e não achou nada. Dizer que você viu a monalisa ali, pertinho, e não achou nada. Dizer que a melhor refeição que você comeu foi do McDonalds. Eu sei que quem sonha em visitar Paris já deve ter parado de ler e quem já visitou Paris e adorou deve estar me achando uma ignorante. Então vamos por partes.
Comparando com nativos de outros lugares que eu visitei, os parisienses são muito mal-educados e a maioria não tem a mínima boa vontade de te ajudar nem se você de fato precisa de informação. Eu entendo um pouco o lado deles, já que deve ser um saco viver numa cidade socada de turista, e de turista chato, tipo os americanos, que chegam com aquela cara sorridente idiota achando que inglês é a língua oficial mundial, ou tipo os chineses que não sabem o significado de “please” e “thank you” e soltam um parágrafo inteiro num inglês incompreensível para um francês na, ahm, França, e ficam repetindo a pergunta, esperando esperançosamente uma resposta.
Mas quando um turista chega e tenta algo na língua do país, o mais comum é ver os nativos respeitarem o esforço do cara e tentarem dar a informação. Em Paris isso aconteceu, mas foi muito mais raro do que nas minhas outras viagens e quando não acontecia eles eram grossos mesmo. E isso é mais triste ainda porque eles sabem inglês, um inglês com um dos sotaques mais feios do mundo, mas sabem.
Próximo ponto foi a sujeira. Paris é suja. Não se enganem achando que é Europa e que tem que ser limpa. Os parques são poeirentos e tem muito pouca grama, o que deixa tudo com uma cara de secura de fronteira mexicana, sabe aquela sensação quando você assiste Breaking Bad e eles mostram o deserto? Essa mesma... E daí passa um ventinho e você encolhe os lábios pra não sentir a areiazinha grudar na saliva, argh.
E tudo fede a cigarro e a mijo. No metrô é aquele cheiro acre de xixi masculino e as paredes manchadas que você encolhe as mãos e os braços para não encostar em nada. Escada rolante também é uma raridade, aí depois de andar o dia inteiro e olhar aquele lance de escada para sair do metrô (que daí é pra cima) você só não dorme ali mesmo porque é fedido demais.
E a comida. Tudo com muita manteiga e uma coisa com a aparência pior que a outra. A gente comprou comida no carrefour porque se não tinha ficado à base de croissant. Nem os quiches tem gosto melhor do que os feitos em Curitiba.
E por último, o que me deu mais raiva, o machismo. Você não ta nem mostrando nada mas eles conseguem achar uma brecha no seu decote e ficam ali, parados do teu lado, olhando com a maior cara de pau no metrô, como se isso fosse aceitável. E o foda é que os franceses fedem também, daí você se sente pior do que quando o tiozão da construção te chama de cremosa. Ui, aquele francês muito feio (eles são a maioria muito feios) mal barbeado, cheirando asa e tabaco, com aquele olhar amarelado, meio doente, secando teu decote micro, aquela barra da camisa que você não sabe sequer se já viu água na vida roçando o seu ombro (você ta sentadinha perto da porta que é para pular fora assim que chegar sua parada). Dalton Trevisan deve ter vivido em Paris, porque foi como uma cena d’A Polaquinha.

Claro que teve um monte de coisa boa em Paris, claro que não vou dizer “não perca seu tempo, não vá pra lá”. Vá sim! Só tem como saber se você gosta ou não depois de ir. Mas vá com sua internet funcionando, não peça informação pra ninguém, e a menos que goste de uma fila quilométrica, vá fora de temporada. E vá com sorte, porque eles não são nem muito fãs de Deus por lá.

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