quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Feijoada e bom senso

Bom, depois da vibe depressiva no meu aniversário as coisas foram voltando aos seus devidos lugares e, novamente, fui voltando à rotina. Uma das coisas mais marcantes sobre a minha rotina é que eu não tenho rotina. Claro que levantar, comer, tomar banho, escovar os dentes, dormir, etc faz parte inevitavelmente. De resto, toda a semana varia - umas das (des)vantagens de se trabalhar em restaurante. Enfim, depois do meu aniversário tive uma dor nas costas bem forte que me tirou do trabalho por quase uma semana e que, diga-se de passagem, ainda não melhorou. Logo, não sei se já estarei trabalhando normalmente essa semana.
Por causa da dor nas costas resolvi ir ao médico, afinal já faz um tempo que ando curiosa para checar a qualidade dos serviços de saúde pública da Inglaterra. Foi na verdade bem engraçado. Primeiro que a médica, além de ser muito feia, coitada, tinha assim um jeito de pessoa suja. Nossa, como faz falta ver um jaleco branquinho! Segundo que, depois que eu descrevi a dor nas costas eu esperava que ela me encaminhasse para um ortopedista ou um quiroprata. Não. Ela só me disse que ia demorar para melhorar e que era para eu tentar me mexer continuamente quando estivesse sentada. Ah meu senhor...
Voltando ao papo da rotina, por causa disso acabei trabalhando menos, bem menos. Mas não posso reclamar, por um lado foi até bom, eu gosto de não ter rotina, gosto de variar, mesmo que isso inclua uma dor nas costas de vez em nunca (graças a Deus!!!). Às vezes fico meio emburrada do restaurante, quando passam umas duas semanas sem nada muito interessante. Isso foi uma das coisas que notei que não mudou em mim mesmo eu mudando de continente. É bom se olhar no espelho e se reconhecer...
E falando em mudanças, com esse ano novo vieram, como sempre, as, hm..., New Year's resolutions. Essa é outra coisa que acho muito imbecil. Todo ano, sem falta, todo o santo ano eu faço mil planos, escrevo um por um, até os numero, bem organizadinha, dá até um orgulho. Passa uma semana e já esqueci tudo. Esse ano, no entanto, ainda não esqueci e descobri que é muito mais legal esquecer, porque ficar com eles na cabeça fica me atormentando o tempo todo. Deve ser um pouco a falta do que fazer - com a dor nas costas andei passando muito tempo em casa. Tem que comprar as passagens para a viagem de férias, tem que resolver a data e comprar as passagens pro Brasil, tem que ver da carteira de motorista, tem que procurar isso, tem que ligar e ver daquilo, tem que resolvei aquele outro, puta que saco!
Um dos meus planos mais simples era comprar uma panela de pressão. Quando pensei nisso, justamente por ser bem simples, tive aquele certeza secreta, aquele sensação de que eu ia esquecer e acabar comprando só no próximo natal. Me surpreendi comigo, outro dia fiz minha primeira feijoada na minha panela de pressão. Ficou muito boa, deu até que raiva. Se soubesse que ia acertar de primeira tinha feito antes...
Um último comentário, essa semana a mãe do Mateus veio visitar. Mateus é o outro polaco com quem dividimos a casa. Bem resumidamente o cara é um porco, desorganizado e preguiçoso até o último pentelho que ele deixa caído no chuveiro, blergh. Pensei comigo que ia ser bom a mãe dele vir visitar, aí vai que ela vendo como o filho é um piá de prédio ela dá uma bronca nele e ele muda um pouquinho. Qual foi minha surpresa! A mulher não levanta um dedo nem para lavar a própria caneca. Ai, ai, tenho que dar risada! Quem diria que falta de bom senso não só afeta qualquer cultura, mas também é transmitida geneticamente. Com o preconceito que rola, acho que vale relembrá-los de que sou brasileira, vai que eles ficam com medo e lavam a louça!

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Natal e Ano Novo - em 2012 o mundo não acabou!

Todo mundo dizia, o Natal vai ser a pior parte, vai ser quando você vai sentir mais a falta da família. No começo achei tudo muito estranho. Fiquei até bem empolgada com a ideia, comprei os papéis e fitas para os presentes, escolhi uma árvore bem linda, o Paweł se encarregou da decoração e das luzinhas, montamos tudo juntos e tá ali na sala, vai ficar até dia 6. O Natal chegou, disseram que nos restaurantes ia ser uma loucura, que nada. Todo mundo ficou surpreso, dezembro foi quieto e passou bem devagar. A saudade apertou bastante...
No trabalho a gerente foi bem linda e me deu o dia 24 de folga como eu queria, fizemos aqui em casa uma ceia bem gostosa, sem peru, porque ia ser comida jogada fora. Falei com a mãe, com o tio, com a vó, com as tias, com a prima, só o pai chato que não atendeu e fica me deixando preocupada (dá notícia, faz favor, cansei de ligar e cair na secretária eletrônica). Foi um natal diferente e muito legal.
Depois do Natal ficou mais corrido no restaurante, pouca coisa, mas fez diferença. Na sexta passada me irritei com a atitude de uma outra gerente, essa uma vadia e ainda feia que é uma desgraça. Como que pode meu deus, eu que achava que gente feia tinha que pelo menos compensar e ser querida! Daí já viu, fiquei com um mau humor do cão nos próximos dias. Trabalhando muito no fim de semana, esqueci que dia 31 era na próxima segunda, mas como todo mundo disse que o restaurante ficava morto presumi que ia ter tempo de fazer meu churrasco, já que a viagem para Londres para ver os fogos ficou cancelada (mea culpa, esqueci de pedir a noite do dia 31 de folga...). Véspera de ano novo, restaurante cheio que parecia sábado, era para eu terminar às 23h, mas lá no fundo já sabendo que não ia conseguir. Fiquei para a contagem regressiva, mas foi ver meus colegas comemorando o começo de 2013 no meio do trabalho o que me deu raiva. Olhei em volta e pensei, que se fodam vocês, não gosto de ninguém aqui o suficiente para ficar para ajudar, eu vou é para a minha casa fazer o meu churrasco e comemorar com quem interessa. Saí, meia noite e um, chorando de raiva e jurando que, nem que eu me demita às onze e meia da noite, não passo ano novo no trabalho de novo nunca mais. Nevermore!
Não sei o que foi pior, ver o Paweł chateado por passar o ano novo em casa, fazer a maldita contagem com gente que quero mais é que vá pra puta que o pariu, ou chegar em casa sabendo que 2013 começou e eu ainda estava de uniforme. Ai que ódio!!!!!!!!!! Cheguei em casa tão frustrada, mas tão frustrada, queria matar aquele bando de gente que não tinha mais o que fazer e lotou o restaurante, queria voltar no tempo e pedir o dia 31 de folga, queria espancar a gerente vaca até ela virar um pokemón bem bonitinho e voltar para a imaginação de quem criou o desenho.
A única solução que me acalmou foi comemorar a virada junto com o Brasil, que seria aqui duas da manhã. Falei com a família de novo, nem sinal do meu pai de novo..., e finalmente bateu a tristeza, uma saudade dolorida de estar com as pessoas com quem cresci, de ver Curitiba abandonada, de vestir branco por tradição, de abraçar a mãe e falar com o pai escondido no matagal onde ele achou minha madrasta (Gil, te amo, mas não podia perder a piada, hehehe). De pijama, virando a carne, assisti os fogos de copacabana pela internet e acompanhei (não comemorei porque to ficando mais velha e não tenho motivo nenhum pra comemorar a chegada das rugas), ao mesmo tempo que a minha família, a entrada de 2013.
A gente acha que, quando está assim, sozinho, longe, virando adulto, vai se adaptar a tudo, vai sofrer e ficar mais forte, vai crescer e aprender a lidar com todo o tipo de situação. Mas quando sente aquele vazio que a falta de alguém muito importante abre dentro do peito, percebe que a criança que fomos um dia, escondida, guardada nas nossas lembranças volta e nos faz sentir vulneráveis e amedrontados, sozinhos no mundo. Meu polaco diz que, mesmo depois de 7 anos longe da família, o Natal ainda o afeta, e isso que a Polônia é aqui do lado, distância de Porto Alegre a São Paulo. Sempre passei ou Natal, ou Ano Novo, ou ambos com a minha família, mas só doeu mesmo quando não passei nenhum dos dois com ninguém, nem meu pai atendeu o telefone... E daí tem meu aniversário, daqui 3 dias, num domingo, meu dia fa-vo-ri-to (morre domingo, te odeio) e, de novo, sem família. Sei que podia ser pior, sempre pode ser pior, mas bem que eu queria voltar a ser adolescente e tocar um foda-se bem grande, comprar a passagem para amanhã e ir passar um mês morgando no calor maravilhoso que eu amo tanto do meu Brasil.
Sinto pelo tom deprimido no final desse post, mas é o que faz a saudade e a nostalgia, é que as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como aí, aqui elas gorjeiam em mil línguas e mil culturas, mas nenhuma é como aquela de dentro da casa da minha vó, com peru e amigo secreto, família reunida e quatro mulheres para lavar a louça (a vó não conta e a prima ainda ta aproveitando seus 14 anos). Quando eu era criança queria tanto ser adulta, hoje em dia já tenho minhas dúvidas.
Abraço família querida, amigos que são a família que eu escolhi e pai, se não chegou a tecnologia aí na roça, manda pelo menos um pombo correio, obrigada.