quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Polônia polenta

Vou contar rapidinho porque to com fome e hoje quero comer polenta.
Na viagem para a Polônia, fora os dias que fomos para Praga, eu e o boy passamos a semana na casa dos pais dele. O irmão dele e a esposa passaram bastante tempo com a gente, mas foi tranquilo porque eles falam e entendem inglês, se não maravilhosamente bem, pelo menos o mínimo necessário para uma comunicação satisfatória. Já os pais dele...
Você pensa, ah, tudo bem, o boy traduz, vai ser tranquilo, e se não tiver outro jeito vai na linguagem corporal mesmo. Claro, linguagem corporal é uma coisa divina, funciona para perguntar onde a pessoa guarda as xícaras, o café, o leite, o prato, a faca, a manteiga, o pão. Mas assim né, você senta de frente para a sua possível-futura sogra, ela te olha com aquela cara como se você fosse um bichinho exótico muito simpático, esperando algo de você. Por eu não ser preta, porque eles acham que Brasil é equivalente à África na América Latina, fica aquele clima de lista de perguntas. Pensa bem, a gente no Brasil tem uma idéia de Europa assim bem mais ou menos, mas tem. Brasil, para a maioria dos europeus, é sinônimo de café, comida picante, floresta, mulherada dançando pelada, sexo, samba, caipirinha. E a imagem é que todo mundo é da cor do café. Na boa, vejo mais gente preta aqui do que em Curitiba (ta, eu sei que Curitiba não é referência), e aqui preto é preto do tipo se apagar a luz você só vê os dentes. No Brasil, minha opinião pelo menos, as pessoas ditas "pretas" tem uma cor bonita, a maioria é um chocolate ao leite, tem as mais claras, as mais escuras, tem as mais para cor de índio e as bronzeadas, mas é tudo brasileiro e com cara e jeito de brasileiro. Tenho muito orgulho de explicar isso para os ingleses quando eles perguntam, atônitos, como eu posso ser branca se sou "latina".
Enfim, voltando à Polônia. Sabe aquela história de que o melhor jeito de aprender uma língua é se jogar na cultura? Bom, depois de ouvir e ouvir e ouvir, fui começando a entender e a me virar. Por exemplo, um dia eu estava postando umas fotos e meu possível-futuro sogro estava sentando me perguntando o que eu estava escrevendo - é, acho que isso rola na linguagem corporal também. Com o google aberto, digitei tudo no tradutor e voilà, nos comunicamos. Outro exemplo, muito divertido, foi quando estávamos cozinhando e a mãe do boy veio querer lavar as coisas para a gente e cuidar da limpeza, e eu dizia, na minha cabeça, que era para ela sentar e sossegar, que depois a gente resolvia isso. Daí eu me lembrei que o boy vivia dando aqueles comandos para a labradora (existe isso, labradora?) dele, tipo senta, deita, dá a pata e tals. E eu viro para a minha sogra e digo, com a maior confiança que não saber porra nenhuma de uma língua que você está tentando falar pode te dar, e solto "SOGRA, SENTA". Me senti uma criancinha de novo, falando algo errado e fazendo todos os adultos presentes darem risada. Aparentemente, em polonês (tinha que ser em polonês), você só fala daquele jeito específico com o cachorro. Bom, valeu a tentativa.
Mas não termina aqui, eu disse ali em cima que se jogar na cultura ajuda a aprender a língua. No meu caso acho que o que mais ajuda é a lembrar de vocabulário - que é e sempre foi minha maior dificuldade. Ontem fomos num restaurante polonês em Bognor Regis já nosso conhecido e, como todos os funcionários são poloneses, quem fez o pedido foi o boy. E foi graças a algumas poucas palavras-chave que entendi quase todos os pedidos. Foi uma das experiências linguísticas mais legais que já tive.
Agora chega de falar da Polônia que eu to com fome e meu fubá nao vai se cozinhar sozinho!
(Só um PS, acabei de perceber que polenta parece um adjetivo, não é?)

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Falta de comunicação

Mas tem mais para contar das férias do que o que escrevi para o último post.
Ir para Praga foi uma aventura, em termos de arquitetura e arte foi tudo parte de uma novidade surreal para mim. Mas vamos e convenhamos que, numa cidade turística como essa, não é tão difícil se achar se você fala inglês. Já se você fala espanhol é outra coisa (basicamente você tá fudido...). Que dó que deu de uma moça pedindo informação e a atendente dizendo bem seca "não falo espanhol" nem lembro mais em que língua. Os atendentes, em geral, se não te entendem de primeira também não fazem muito esforço. Nas lojas a história era outra. Numa lojinha com duas russas uma arranhava até italiano.
Por incrível que pareça, no entanto, nós nos viramos anos luz melhor com o polonês do boy, do que com nosso inglês. Num dos restaurantes a garçonete até tentou, mas acabou virando as costas triste, tadinha, dizendo em checo "eu não entendo...". Daí, depois que veio a gerente no lugar dela, o boy falou em polonês e no final veio de volta a garçonete feliz da vida atender a gente em checo mesmo. E acreditem, eles se entenderam perfeitamente.
Agora, imaginem eu na Polônia, onde só a geração mais nova fala inglês, tentando entender a maquininha de café na "rodoviária" de Cracóvia, quando vem um senhorzinho me pedir ajuda. Ô meu senhor, se não me pedem informação nem aqui na Inglaterra, tenho decerto cara de polaca? E naquela pressão eu não lembrava como dizia "não falo polonês" e o senhorzinho repetindo e o boy no guichê comprando as passagens e a senhorinha com o senhorzinho falando outra coisa e eu com as moedas na mão pra comprar o meu café e tudo rodando. Desmaiei, foi pressão demais. Rá! Mentira! Hahahaha, mas seria lindo eu desmaiando na frente da máquina de café!
Bom, nisso eu lembrei como dizia "não entendo", o que não adiantou nada, porque o senhorzinho achou que eu não tinha entendido a pergunta e continuou repetindo e apontando. Mas daí o boy terminou de comprar as passagens e veio ao meu socorro. Tudo resolvido o senhorzinho comprou seu chocolate quente, os três riram da situação e eu continuei sem entender nada. E consegui meu café. Final feliz.
Num outro dia, lá pelo fim da viagem, fui ver umas roupas para o inverno, porque lá eles sabem se proteger do frio - chega a -30ºC fácil fácil. Na única loja em que entrei sozinha, adivinhem, veio a moça falar comigo. Olhei para um lado, para o outro, foi batendo o desespero, fechei os olhos torcendo pra falar certo e disse um mega tímido nie mówię po polsku. Sei lá do que ela achou tanta graça, deve ter sido o jeito que eu falei, mas ela e a outra atendente não pararam mais de rir. O boy entrou na loja só mesmo pra sair, porque depois dessa fiquei muito sem graça até de provar alguma coisa. Passei por mais alguns apertos, mas nada que não se resolvesse com google tradutor ou linguagem corporal.
Faz quase uma semana que estamos de volta e já deu saudade de ouvir polonês o dia inteiro. Não sei se é porque a língua é bonita ou porque às vezes prefiro não entender o que as pessoas falam. Talvez seja um pouco dos dois.