sexta-feira, 27 de julho de 2012

Pertencimento

Da última vez comentei no finalzinho sobre uma sensação de pertencimento que senti na volta da praia para Reading. Hoje tive mais uma sensação dessas, mas de um jeito diferente. Como todos que acompanham o blog sabem, aqui na inglaterra eu sou garçonete num restaurante de comida latina. É um lugar bem tranquilo, nada chique, com cara de restaurante do cenário da Malhação - ainda passa Malhação? - onde senta aluno, professor, diretor, pais, e todo mundo toma uma bera junto bem de mentirinha. Por ser assim, lá é o tipo de lugar que, dependendo do cliente, você até senta na cadeira na mesa dos caras para anotar o pedido. Sendo assim é comum rolar uma empatia legal com os clientes. Isso aconteceu comigo ontem, atendi uma mesa com uma moça húngara e a filhinha dela inglesa, a menina a coisa mais querida e a moça muito relax, gente fina e educada. Aí hoje criei vergonha na cara e fui correr no parque, coisa que faz mais de mês que não dá tempo de fazer, e com quem dou de cara andando de roller? com a dona húngara. Acompanhei-a um pedaço e ela me contou um pouco da sua história, de quem veio para cá 16 anos atrás para passar um ano, se apaixonou, voltou para a Hungria e depois nao quis saber mais e voltou para a inglaterra para viver com o cara - que é seu marido até hoje. No final nos despedimos e deu aquela sensação de viver numa cidade muito pequenininha ou numa vila muito grande, aquela sensação de que acabamos sempre esbarrando em gente que conhecemos de algum lugar. E é uma sensação muito legal, afinal, amanhã vai fazer quatro meses que estou aqui (sim, 4, já ^^) e é bom ver que o rio ta correndo num ritmo natural e nao meio atolado e cheio de impedimentos.
Claro que percalços sempre existirão e não acho justo reclamar deles, porque sem eles a vida seria com certeza muito sem gosto, pelo menos para mim, se fosse sempre tudo igualzinho sem nenhum evento inesperado. Estando longe as vezes me pego desejando que, fora desse meu mundinho que estou construindo e decorando por aqui, as coisas fossem estáticas. Que a vida lá do outro lado do mundo parasse e congelasse e quando eu voltasse estivesse tudo no mesmo lugar. É como parar o livro na metade e voltar a ler sabendo que ainda nada aconteceu, e que só vai acontecer depois que voce voltar para onde parou e der continuidade a leitura. Parece egoísmo, mas na verdade é um medo que surgiu para mim com a constatação do tempo e da distância, constatação essa que vem se formulando conforme reconheço e sou reconhecida por pessoas na rua, passeio com colegas de trabalho, almoço num restaurante e converso com os garçons porque são todos "amigos", vou sempre a mesma loja comprar com a mesma vendedora. Essas pequenas coisas são as que constroem esse dia-a-dia do meu mundo particular, que me insere nesse mundo de Reading, da inglaterra, da europa, do fato de que estou em outro continente e de que quase tudo o que sempre fez parte do meu mundo está lá longe, cada qual vivendo seu mundo particular e todo esse meu mundo se separando (detaching era a palavra que eu queria) do que era e se reorganizando, se transformando numa coisa nova, numa mistureba (generalizada de todas as coisas), num novo universo.
E tudo graças a detalhes tão pequenos e de uma sensação inesperada de pertencimento no meu dia de folga. Dá-lhe!

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Bognor Regis

Anteontem fui para a praia! Ai que delícia!!! Fazia muito tempo que eu nao via o mar...
A ideia surgiu semana passada, quando parei para pensar que logo logo o tempo pode começar a piorar, porque aqui é sempre um mistério, e daí ir para a praia seria mais para turismo do que para ver o mar e o lugar em si. Combinei com um amigo de que assim que tivéssemos dia de folga juntos iríamos nessa praia que ele descobriu ao acaso uns meses atrás. Claro que eu devia imaginar que, sendo meu amigo polones, devia ter algum atrativo especial pra ele por lá.
Pouco depois de Portsmouth, mais a frente, fica Bogno Regis, uma praia de pedrinhas, cheia de gaivota, fria, mas muito muito linda. Quem viu as fotos no facebook que confirme. O céu estava azul clarinho, a água do mar geladinha e o vento forte, tudo com cara de praia de inverno, ou pelo menos de um lugar longe do país tropical de onde venho. Muito gostoso andar pela orla e atravessar as pedrinhas para molhar os pés, deu muito uma alegria de viver! E depois andar pela cidade, ver aquela gente tranquila, típicos moradores de praia, comer num restaurante polones e se empanturrar de uma comida muito saborosa e diferente, depois dar aquela caminhada pós janta andando devagar porque não tem nem condição de se mexer muito rápido, ir até a ponta do píer, se despedir do mar e voltar pra casa.
Ai que passeio mais gostoso!!! Cheio de curiosidades, do tipo que a cidade tem tanto polones que as ofertas nos mercados estão em inglês de um lado e do outro traduzidas para o polonês. Dois menus no restaurante, sendo que o que está em ingles é para os raros não falantes de polonês que vão comer lá - tipo eu assim. A mesa do lado era uma família russa e inglesa. O restaurante é pequeno, bem ajeitado, com cara de restaurante de máfia, e ainda ouvindo polonês de um lado e russo do outro me senti num filme do Martin Scorcese!
Taí uma coisa muito sem cara de turismo e muito com cara de farofeiro que valeu a pena fazer e que não esperava fazer aqui. Recomendo. Deu até uma sensação de pertencimento na volta pra Reading (me senti momentaneamente voltando de São Chico pra Curitiba). Espero que isso seja um bom sinal =)

terça-feira, 10 de julho de 2012

better someone than no one at all

Paramos na reflexao sobre pertencer a uma determinada engrenagem, certo? Bem, antes de entrar nesse assunto quero fazer um "a parte". Alguem viu aquele filme, Na Natureza Selvagem (Into the Wild, no original)? No finalzinho o menino faz uma observacao muito legal, sobre se ser feliz quando se está com quem se ama. Ou seja, nem sempre a felicidade está em conhecer o mundo sozinho, mas talvez ficar a vida toda no mesmo sítio criando porco com a sua família te de muito mais alegria. Ou nao. E como voce vai saber? Tudo depende das escolhas que voce faz. É claro que podemos mudar de ideia, a vida serve para isso né, ora bolas, para voce redescobrir o mundo e a si próprio sempre que estiver disposto a tanto.
Era aqui que eu queria chegar. Eu vim pra cá porque estava disposta a conhecer partes de mim que me eram invisíveis na zona sudoeste de conforto da minha (nem sempre) adorada Curitibacity. Sejamos honestos, eu precisava conhecer esses meus outros lados, foi um dia uma vontade, virou obsessao. Mas, de fato, me dispus a me arrancar daquele pedacinho de mundo e voar pela KLM (nao facam isso com o corpinho de voces, nunca voem pela KLM) para um outro pedacinho de mundo. E muito mudou em mim gracas a isso. Saí de Curitiba me sentindo uma menininha e hoje me sinto, gracas a esses choques todos pelos quais vivo passando, uma mulher adulta, capaz de caminhar com as próprias pernas, de planejar seu futuro, de viver dando o melhor de si. Parece um puta clichezasso, mas com isso eu aprendi a me respeitar muito mais.
E tudo porque decidi sair de uma engrenagem e me inserir em outra. E apesar de ter entrado em um sistema que parece desconsiderar a beleza e o milagre da existencia dos indivíduos enquanto seres humanos e que parece preferir tratá-los como insetos, escravos, receptáculos sem sentimentos, foi gracas a esse sistema que EU aprendi a dar valor ao ser humano. Foi ao ver o que um sistema bem organizado e civilizado pode fazer por e com uma pessoa que os pequenos grupos chamaram minha atencao. Sao os estrangeiros que sustentam o reino unido, sao eles que estao sempre dispostos a trabalhar horas ridículas (tipo 60h, 70h/ semana - coisa comum entre polacos e brasileiros, por exemplo), sendo tratados, nao raramente, como servos por asiáticos que acham que estao no oriente médio e que também ajudam a sustentar esse lugar. E mesmo dentro dessa bola de neve essas pessoas ainda conseguem se manter unidas. É por isso que escolhi continuar sendo garçonete. No restaurante tenho oportunidade de ver tantas diferenças culturais, de conversar com ingleses que acham um absurdo eu ter vindo para cá ao invés de ficar no Brasil que "deve ser um lugar lindo", de praticar meu espanhol quando aparece um hermano latino, vish, tem tanta coisa boa no meio da pressão e do porre que é um restaurante lotado com lista de espera e tudo, que vale a pena sim.
Foi isso, e o que escrevi no ultimo post, que me levaram a concluir que é melhor ter companhia nas minhas viagens (fisica e metaforicamente falando) por esse mundão de meu deus do que tocar uma carreira solo. Nao é minha prioridade numero UM agora, mas é a dois e meio, com certeza. E esse (re)conhecimento fez de mim uma pessoa muito menos racista, de maneira geral - quem me conhece sabe que sou bem racista em termos de nacionalidades, nao de cor. Enfim, tem gente que precisa morrer num onibus no Alaska pra entender a importancia do "calor" humano (sem piadinha), tem gente que nao considera isso importante at all... acho que to no lucro então, porque só precisei mudar de continente e fazer parte de um sistema diferente por 3 meses para concluir o que disse no último post, que as vezes é melhor não tão bem acompanhado do que sozinho... Mas melhor ainda com seus amigos por perto. Tomara que um dia eu possa ter isso aqui.

domingo, 8 de julho de 2012

Como funciona a solidao

Calma gente, nao vai ser um post triste.
Cheguei na inglaterra pensando que ia ser muito facil ficar sozinha porque nao ia ser por muito tempo, que nao ia demorar pra conhecer gente, fazer amigos (daqueles de ir pro boteco), etc. Pois é. Huge mistake. Foi dificil, é dificil, ainda está sendo... Mas as coisas estao comecando a evoluir.
Eu trabalho no Oracle, que é basicamente um shopping center que fecha cedo com um rio passando no meio cheio de restaurantes em volta. Cheio. Nem vou tentar nomear todos. O que acontece é que as pessoas que trabalham nesses restaurantes as vezes pulam de um para outro e acabam se esbarrando e se conhecendo. Como é uma cidade pequena e o pessoal sai muito de noite aqui (aqui no ambito UK), as pessoas acabam sempre indo nos mesmos lugares, que sao os que estao disponiveis, e como já trabalham meio juntas vira tudo uma big (not always) happy family. Todo mundo fica sabendo da vida de todo mundo, quem saiu da onde e foi pra onde, quem foi demitido e por que, quem terminou com quem e está namorando quem, quem fez merda, quem ta apavorando, e por aí vai.
Critiquei muito o Guilherme por sair com gente nada a ver e preferir isso do que ficar sozinho. Aquela historia do "antes só do que mal acompanhado" nao é tao simples como parece. Pensa que esse povo do Oracle, dos restaurantes, sao a maioria gente que vai ficar nisso meio que a vida toda. Um dia vai subir do cargo de garcon para supervisor, daí para assistente de gerente, quem sabe um dia para sub-gerente e olha, se tiver muita sorte, ou se se deixar escravizar, ou se for ingles - que daí é muito mais fácil - voce vira gerente geral. Nossa, deu até um nó no cérebro de traduzir tudo isso para o portugues. Enfim, e se voce virar gerente geral, ainda vai viver com o area manager (esse nao deu) cagando na sua cabeca e fazendo da sua vida um inferno. Infelizmente é meio por aí mesmo, o que me leva a triste conclusao de que os ingleses nao sao muito criativos, nao gostam muito de novidades e que aqui as coisas todas tem um só jeito de ser e esse jeito tem de ser levado ao pé da letra. Isso te coloca inserido num sistema que pode te substituir a qualquer momento, afinal voce é só mais uma peca igual a todas as outras - quebrou? troca.
Entao essas pessoas, sem ofensa, em geral medíocres, acabam se fazendo companhia. Porque afinal, se voce já tá na merda, é melhor acompanhado do que sozinho. E é isso que complica a minha cabecinha cheia de imaginacao e de sonhos. Nao sou nem me sinto uma dessas pessoas, porque primeiro, nao pretendo nem quero ficar aqui por tempo demais, segundo, nao vou me dobrar a um sistema a menos que ele me ofereca vantagens a curto e longo prazo (a longo prazo, ao meu ver, é só depre...). Concordo que, por hora, prefiro ter nao-muito-aconselháveis companhias do que ninguem. Mas pensar nisso num futuro, nossa, dá uma tristeza, é tanta mediocridade e infantilidade, parece um ensino médio revival, só que com muitos vícios (alcool, cigarro, drogas, jogo) porque sao a única fuga. Nem digo que sou contra voce usar esses vícios para se divertir de um jeito diferente de vez em quando. Mas aqui as pessoas se acabam nisso. E é uma máquina, nao pára e nem pode parar. A vida comeca de um jeito, segue um padrao e acaba do mesmo jeito para todo mundo. Me lembra muito o Admirável Mundo Novo do Huxley. De uma forma tosca e geral é isso o que eu sinto, é um nao-pertencimento que as vezes me dói e outras me orgulha. Pra que fazer parte de uma engrenagem que vai te amassar no final?
Acontece que nao estamos sozinhos no mundo e vamos sempre acabar fazendo parte de uma ou outra engrenagem. Mas isso é uma reflexao que deixo para continuar outro dia porque ainda tenho muito para por em ordem antes de dormir. E amanha vai ser mais um longo dia de escravidao trabalho.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Fui para Oxford!

Aeeeeeee! Nem acreditei! Mas quem presta atenção no meu facebook ficou sabendo já no dia seguinte que eu consegui visitar Oxford! Foi muito legal e muito emocionante. Em primeiro lugar me atrasei e cheguei na estação de Reading mais tarde do que pretendia. Mas beleza, fui para a plataforma certa, sem correr, bem tranquilinha e fiquei esperando meu trem. Aí ouço o anúncio... o trem para Oxford vai descer na plataforma da frente. Lá vou eu correndo escada acima e escada a baixo pegar o trem do outro lado, sem nenhum outro aviso, com um monte de gente me perguntando "é esse que vai para Oxford?" e naquele nervoso de ter pego o trem errado. Mas não. Tudo certo. Desci na estação de Oxford quase sem acreditar. Andei um pouco e fui seguindo na direção de um ônibus turístico muito feio, mas que me foi muito útil. Você paga uma vez e pode pegar esse onibus quantas vezes quiser no dia e ainda ganha desconto nas atrações e em alguns restaurantes (motivo que me levou a comer no Bella Italia de noite antes de voltar para casa).
Visitei Christ Church, como todos souberam pelas fotos que postei no fb, conheci o salão no qual os caras (sei lá que caras especificamente) se inspiraram para criar o salão do filme do Harry Potter. Conheci a Christ Church Cathedral, um lugar de tirar o fôlego, com vitrais coloridos, alegres - o minister até me deixou tirar foto do altar de perto para eu postar para a minha vó querida ver *-* Conheci também a Bodleian Library, que fechou historicamente por três dias e três noites para a filmagem das cenas na biblioteca no Harry Potter levando os alunos a ataques fulminates de fúria. Vi mais alguns lugares muito bonitos - protegida pelo teto do ônibus de turismo depois de pegar muita chuva - mas foi o que deu, infelizmente não foi muito, mas me deixou bem feliz. Ainda consegui arranjar um tempinho para enviar uns postais e um presente pra vó, acho que ela deve receber essa semana.
Hoje estou de folga, amanhã também, mas essa semana não vou passear. Vou aproveitar para descansar, cozinhar, ver filme, escrever um pouco mais, amanhã vai ser o dia da preguiça. Ontem foi a final da euro, assisti o final do jogo, mas achei meio sem graça, a espanha sempre joga do mesmo jeito, nem tem muito porque assistir. Essa semana comecei a me perguntar sobre as coisas que me levaram a me mudar para cá (sim, me mudei temporariamente, ora bolas, não volto mais em agosto, a previsão está para o princípio em dezembro, mas ainda veremos...) e isso gerou umas reflexões muito legais que vou tentar postar nos próximos dias. Uma dessas reflexões incluiu a decisão de postar de dois em dois dias, para testar se eu consigo lidar com prazos e se consigo escrever apesar do cansaço, do pouco tempo, da falta de vontade, da preguiça. Mas tem muito mais coisa para comentar. Vamos ver se consigo a primeira meta, se conseguir meus leitores vão ter bem mais para ler nos próximos dias.
Por hoje é só. Boa noite e até quarta.