Da última vez comentei no finalzinho sobre uma sensação de pertencimento que senti na volta da praia para Reading. Hoje tive mais uma sensação dessas, mas de um jeito diferente. Como todos que acompanham o blog sabem, aqui na inglaterra eu sou garçonete num restaurante de comida latina. É um lugar bem tranquilo, nada chique, com cara de restaurante do cenário da Malhação - ainda passa Malhação? - onde senta aluno, professor, diretor, pais, e todo mundo toma uma bera junto bem de mentirinha. Por ser assim, lá é o tipo de lugar que, dependendo do cliente, você até senta na cadeira na mesa dos caras para anotar o pedido. Sendo assim é comum rolar uma empatia legal com os clientes. Isso aconteceu comigo ontem, atendi uma mesa com uma moça húngara e a filhinha dela inglesa, a menina a coisa mais querida e a moça muito relax, gente fina e educada. Aí hoje criei vergonha na cara e fui correr no parque, coisa que faz mais de mês que não dá tempo de fazer, e com quem dou de cara andando de roller? com a dona húngara. Acompanhei-a um pedaço e ela me contou um pouco da sua história, de quem veio para cá 16 anos atrás para passar um ano, se apaixonou, voltou para a Hungria e depois nao quis saber mais e voltou para a inglaterra para viver com o cara - que é seu marido até hoje. No final nos despedimos e deu aquela sensação de viver numa cidade muito pequenininha ou numa vila muito grande, aquela sensação de que acabamos sempre esbarrando em gente que conhecemos de algum lugar. E é uma sensação muito legal, afinal, amanhã vai fazer quatro meses que estou aqui (sim, 4, já ^^) e é bom ver que o rio ta correndo num ritmo natural e nao meio atolado e cheio de impedimentos.
Claro que percalços sempre existirão e não acho justo reclamar deles, porque sem eles a vida seria com certeza muito sem gosto, pelo menos para mim, se fosse sempre tudo igualzinho sem nenhum evento inesperado. Estando longe as vezes me pego desejando que, fora desse meu mundinho que estou construindo e decorando por aqui, as coisas fossem estáticas. Que a vida lá do outro lado do mundo parasse e congelasse e quando eu voltasse estivesse tudo no mesmo lugar. É como parar o livro na metade e voltar a ler sabendo que ainda nada aconteceu, e que só vai acontecer depois que voce voltar para onde parou e der continuidade a leitura. Parece egoísmo, mas na verdade é um medo que surgiu para mim com a constatação do tempo e da distância, constatação essa que vem se formulando conforme reconheço e sou reconhecida por pessoas na rua, passeio com colegas de trabalho, almoço num restaurante e converso com os garçons porque são todos "amigos", vou sempre a mesma loja comprar com a mesma vendedora. Essas pequenas coisas são as que constroem esse dia-a-dia do meu mundo particular, que me insere nesse mundo de Reading, da inglaterra, da europa, do fato de que estou em outro continente e de que quase tudo o que sempre fez parte do meu mundo está lá longe, cada qual vivendo seu mundo particular e todo esse meu mundo se separando (detaching era a palavra que eu queria) do que era e se reorganizando, se transformando numa coisa nova, numa mistureba (generalizada de todas as coisas), num novo universo.
E tudo graças a detalhes tão pequenos e de uma sensação inesperada de pertencimento no meu dia de folga. Dá-lhe!
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